Memórias Póstumas



O mural da sala de aula na primeira série era dividido entre sol (excelente comportamento e desempenho nos trabalhos e atividades), estrela (bom, mas poderia melhorar) e lua (ruim). Os nomes de todos os alunos eram colocados em cada espaço conforme avaliação feita pela própria turma e professora a cada semana. Ela foi sempre uma menina independente, inteligente e dedicada aos seus desejos: fazia seus trabalhos da escola sozinha, nunca pedia ajuda; organizava sua própria agenda; planejava realizar grandes sonhos e agia por si mesma pra que isso acontecesse. O nome dela estava sempre sob o sol. Era obcecada pelo sol.


Difícil foi depois sustentar, de um lado, a adolescente nerd e tímida que queria ter as melhores notas porque sonhava com um intercâmbio em outro país e com entrar em faculdades, e, de outro, a queen bee que fazia amigos com facilidade e tinha a liberdade como o mais importante dos seus privilégios, além de uma fila de meninos interessados e outra de meninas querendo imitar suas roupas, seus penteados e seu bronzeado  — ela seguia obcecada pelo sol e viveu essa fase como uma estrela. Então, podia ser melhor, mas o choque dos seus dois eus causava muitas turbulências. Mesmo assim, ela conseguiu; fez o que podia, com o que tinha, sempre que precisou agir para não abrir mão de nenhuma das habitantes de si.


Porém, nada se comparava ao que estava por vir. O início da vida adulta trouxe responsabilidades que, aos 6 anos, ela teria tirado de letra, mas, ali, naquele momento, ela não dava a mínima. Agora ela só queria ser a lua. Vivia na rua, nua e crua. Não queria ler, estudar ou sequer escrever. Aprendeu o que a sala de aula não ensinava, e doeu. Se queimou na busca pelos raios de sol novamente, mas foi assim, de volta à sala de aula, que foi se reencontrando. Até que um dia ele se apresentou outra vez:

—  “Meu nome é sol” —  ela ficou obcecada por ele.


Depois de um tempo, o sol também soube fazer mal, claro. Ela se afastou. Viveu os anos seguintes como uma brilhante estrela em busca das demais infinitas possibilidades que poderia encontrar no universo. Realizou muitos dos seus sonhos de infância, experimentou o que queria e o que nem imaginava, mudou de opinião várias vezes, explorou o mundo e conheceu muitas pessoas especiais, outras estrelas como ela, e assim mais ela brilhava. A cada movimento em direção a eles, faíscas. Atritos também, é verdade, mas foi aprendendo a controlar a intensidade. Até que um dia isso gerou tantas rachaduras que cansou. Parou. Olhou pra si e entendeu que precisava ser o sol novamente. Ser o sol, como na sala de aula da infância, não encontrá-lo em outras pessoas, nem esperar que outros raios a iluminassem. Foi um longo processo, mas lá estava, obcecada pelo seu sol novamente.


Viveu pra ver os reencontros que pareciam impossíveis, pra conhecer tudo sobre o que tinha curiosidade, pra ser livre pra levar sua própria sala de aula consigo e ver seu sol nascer como e de onde quisesse, por todo o mundo. Era obcecada pelo sol, até que ele se pôs.


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